Agência Biodiversidade (BIT), 04/25
A Comunidade Tradicional da Baía do Araçá, localizada no município de São Sebastião, litoral norte de São Paulo, enfrenta atualmente desafios significativos relacionados a questões ambientais e possíveis violações de direitos. Em março de 2024, a prefeitura municipal, sob a gestão do prefeito Felipe Augusto (PSDB), publicou decretos visando à desapropriação de 16 imóveis no bairro Varadouro, onde reside a comunidade caiçara. A justificativa apresentada pela administração municipal é a necessidade de “requalificação da urbanização da orla marítima do Araçá e preservação ambiental do seu mangue”.
Os moradores, muitos dos quais descendem de famílias que há gerações vivem da pesca na região, manifestaram profunda preocupação com a medida. Humberto de Almeida, pescador e membro da comunidade, expressou: “Vamos para a 6ª geração de uma família que sempre viveu da pesca. Sair daqui é morrer”. Ele destacou ainda os esforços contínuos dos moradores na preservação ambiental local, incluindo o plantio de mudas de vegetação nativa e a limpeza das áreas costeiras.
A prefeitura argumenta que as construções na área são irregulares e que algumas abrigam atividades comerciais que contribuem para a degradação ambiental, como empresas de lavagem de banheiros químicos. O prefeito Felipe Augusto afirmou que “pescador tradicional é minoria absoluta” na região e que as ocupações estão poluindo o manguezal.
Em resposta, a comunidade, apoiada por organizações como a Associação de Pescadores e Comunidades Tradicionais da Baía do Araçá (Apeco) e o Coletivo Caiçara, organizou manifestações, incluindo o movimento “Abraço no Araçá”, para protestar contra as desapropriações. O vereador Giovani dos Santos (PP), conhecido como ‘Pixoxó’, propôs um decreto legislativo visando suspender as desapropriações, argumentando que o território de comunidades tradicionais é protegido pela Constituição e que não houve diálogo prévio com os moradores.
O Ministério Público Federal instaurou um inquérito para apurar a legalidade das desapropriações, solicitando esclarecimentos dos órgãos públicos envolvidos. A procuradora Walquiria Imamura Picoli ressaltou que a remoção da comunidade desrespeita legislações e acordos internacionais, como a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que garantem os direitos dessas comunidades aos seus territórios tradicionais.
Os moradores também expressam desconfiança em relação aos reais objetivos do projeto da prefeitura, suspeitando de possíveis interesses relacionados à expansão do porto próximo. Eles denunciam ainda a falta de serviços públicos adequados e alegam que a administração municipal utiliza narrativas que os responsabilizam injustamente pela degradação ambiental local.
Diante desse cenário, a Comunidade Tradicional da Baía do Araçá permanece em resistência, buscando preservar seu modo de vida, cultura e o território que ocupam há várias gerações.