
(Imagem ilustrativa)
Por Ligia Gabrielli, do Depto. de Comunica Institucional UNIFESP/ASSESSORIA DE IMPRENSA E JORNALISMO
26/06/2024
Pesquisadores do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar/Unifesp) – Campus Baixada Santista, liderados pela pós-doutoranda Aline Martinez, mapearam a linha costeira do estado de São Paulo, revelando dados inéditos sobre a urbanização das zonas costeiras do Brasil. O estudo, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), foi publicado nesta quarta-feira (26) na revista científica Anthropocene Coasts e destaca a necessidade urgente de ações para uma gestão costeira sustentável e resiliente. No mesmo dia, um relatório público em português foi lançado com os dados em Santos, durante o 3.° Fórum do Corredor Azul: Polo Cientifico e Tecnológico em Economia Azul, Porto e Logística.
A pesquisa mapeou toda a linha de costa de São Paulo para quantificar a extensão de estruturas artificiais, como quebra-mares, espigões, cais de porto e píeres, e ocupações em zonas costeiras de baixa elevação próximas a praias e margens estuarinas. Essas áreas são altamente vulneráveis a eventos climáticos, sofrendo com o avanço do nível do mar, inundações e erosão.
A pesquisa revelou que o litoral paulista possui 245 km de estruturas artificiais na linha de costa, o que equivale a três vezes a distância entre São Paulo/SP e Santos/SP. Infraestruturas de proteção costeira, como muros de contenção, muretas, quebra-mares, e estruturas de atracamento de embarcações representam 80% de todas as estruturas mapeadas, sendo que 63% delas estão na Baixada Santista, a região mais urbanizada.
“Embora essas estruturas sejam úteis para nossas atividades diárias, elas causam grandes impactos ambientais, como a perda de habitats naturais e de biodiversidade, além de serviços ecossistêmicos essenciais”, explica Aline Martinez. “Essas infraestruturas também facilitam a bioinvasão, quando espécies de uma região se estabelecem em novas localidades, causando problemas ambientais e prejuízos econômicos”, completa a pesquisadora.
O estudo também revelou que mais de 300 km da costa paulista têm ocupações humanas em áreas vulneráveis: 235 km perto de praias e 67 km próximos a manguezais e margens estuarinas. Isso significa que mais de 25% da linha costeira “mole” do estado possui populações humanas e infraestrutura urbana em áreas altamente suscetíveis a riscos climáticos. A pesquisa ainda mostra que 55% da extensão de praias do litoral de São Paulo possui áreas urbanizadas dentro de apenas 100 m de distância da faixa de areia. Na Baixada Santista e no Litoral Norte, esta cifra sobe, respectivamente, para 81% e 74% das praias.
“Manguezais e vegetações como as restingas são nossa primeira linha de defesa contra o impacto das ondas e o avanço do mar. Com as mudanças climáticas, preservar essas vegetações é crucial para proteger cidades costeiras, pessoas e atividades econômicas”, explica o pós-doutorando André Pardal, coautor da pesquisa. “Projeções indicam que praias podem recuar até 100 metros até o fim do século devido ao aumento do nível do mar e à erosão. O intenso processo erosivo já observado em Ilha Comprida/SP, por exemplo, pode se tornar comum em todo o litoral paulista nas próximas décadas”, acrescenta Pardal.
“Exceto nos municípios do Litoral Sul, as áreas em frente às praias estão altamente urbanizadas no resto do estado. Precisamos de planos e ações eficazes para preservar os manguezais e restingas remanescentes e restaurar áreas alteradas”, comenta o professor Ronaldo Christofoletti. “No contexto dos debates sobre a PEC das Praias, nosso estudo enfatiza a necessidade de fortalecer a preservação dos terrenos de marinha e seus acrescidos, ao invés de facilitar suas ocupações”, completa Christofoletti.
Os resultados mostram que a urbanização costeira é uma fonte significativa de impacto ambiental e riscos costeiros em São Paulo e no Brasil. A pesquisa ressalta a importância de ações eficazes para mitigar esses impactos e promover um desenvolvimento costeiro sustentável. Em particular, o estudo alerta para as ameaças de alterações em leis que facilitem a ocupação de áreas costeiras altamente vulneráveis às mudanças climáticas.